Laser e escleroterapia dentro do mesmo planejamento
A pergunta que mais ouço no consultório é qual das duas técnicas funciona melhor. A literatura mostra as duas funcionando, em faixas diferentes de calibre, com rendimento maior quando entram juntas no mesmo tratamento.
A revisão Cochrane de 2021 sobre tratamento de telangiectasias e veias reticulares, assinada por Nakano, Cacione, Baptista-Silva e Flumignan, reuniu 35 ensaios e 3.632 participantes. Na comparação direta entre escleroterapia e laser, não houve diferença clara na resolução das telangiectasias. O laser apresentou menos hiperpigmentação, com certeza de evidência moderada, e os achados sobre dor variaram entre os estudos. A mesma revisão registra que a associação de laser com escleroterapia pode resultar em resolução melhor, acompanhada de mais dor durante as sessões.
A revisão de Vascular chega a um achado convergente: o tratamento com microespuma de polidocanol associado ao Nd:YAG apresentou taxas de clareamento melhores do que o Nd:YAG isolado em três dos estudos analisados. E um trabalho conduzido no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, de Munia e colaboradores, publicado em Dermatologic Surgery, encontrou resultado clínico equivalente entre laser e escleroterapia em pacientes com telangiectasias de perna.
Na minha prática clínica, uso esse conjunto de dados de um jeito bem concreto: mapeio a rede de vasinhos por calibre e distribuo as técnicas dentro da mesma perna, na mesma etapa do tratamento. A parte fina fica com o laser, a parte que aceita punção fica com a escleroterapia. O laser entra desde a primeira etapa, no segmento em que a evidência mostra que ele rende, em vez de ficar guardado para o que sobrar depois de várias sessões de agulha.
Como decido a sequência
O raciocínio segue uma ordem, e ela começa longe da superfície:
- Se o eco-Doppler encontra refluxo em safena ou em veia perfurante alimentando aquela rede, então trato a origem primeiro. Clarear a superfície enquanto a fonte continua ativa antecipa a recidiva.
- Se não há refluxo em troncos e a rede é primária, então o tratamento começa direto pela superfície, e a escolha passa a ser por calibre.
- Se o vaso tem menos de 1 mm e a agulha não entra com precisão, então a sessão é de laser.
- Se o vaso tem entre 1 mm e 3 mm e aceita punção, então a escleroterapia costuma resolver com menos sessões naquele segmento.
- Se o fototipo é mais alto ou há histórico de hiperpigmentação após escleroterapia, então o peso da balança se desloca para o laser, pelo perfil de mancha descrito na revisão Cochrane.
Como é a sessão
A sessão de laser transdérmico é ambulatorial e acontece no próprio consultório. A pele da área a tratar precisa estar sem bronzeado e sem hidratante, creme ou maquiagem no dia. Uso óculos de proteção, e o paciente também.
O aparelho é posicionado sobre o trajeto do vaso e aplica os pulsos ponto a ponto, acompanhando o desenho da rede. A cada disparo a sensação mais descrita é de um calor pontual, parecido com o estalo de um elástico contra a pele, sem anestesia injetável. O resfriamento simultâneo torna isso bastante tolerável para a maioria das pessoas.
Logo depois da aplicação a pele costuma ficar avermelhada na área tratada, às vezes com um discreto relevo, quadro que cede em algumas horas. O vaso pode escurecer antes de clarear, e esse escurecimento inicial faz parte do processo de reabsorção.
A rotina normal é retomada no mesmo dia. Não há repouso nem afastamento do trabalho.
Protocolo, intervalo entre sessões e o que esperar do resultado
O intervalo habitual entre as sessões é de 4 a 8 semanas. Esse intervalo acompanha o tempo que o organismo leva para reabsorver o vaso tratado e mostrar o resultado real daquela aplicação. Reavaliar antes disso leva a decisões tomadas sobre uma foto incompleta.
O resultado é progressivo. O vaso clareia ao longo das semanas seguintes a cada sessão, e a comparação honesta se faz de sessão para sessão, não de um dia para o outro. O número total de aplicações depende do calibre, da extensão da rede e da resposta individual, que varia bastante entre pessoas com quadros parecidos. Qualquer estimativa fechada antes da avaliação presencial seria chute.
Uma ressalva que faço sempre: tratar os vasinhos que existem hoje não impede que novos apareçam. A predisposição genética, o componente hormonal e a rotina de muitas horas em pé continuam agindo. Por isso o acompanhamento periódico faz parte do plano, e não é sinal de que algo deu errado.
Cuidados depois de cada sessão
- Sol: evitar exposição solar direta na área tratada por 2 a 3 semanas e manter protetor solar de amplo espectro na região. A pele tratada fica temporariamente mais sujeita a hiperpigmentação, e o sol é o principal fator de mancha nesse período.
- Calor local: adiar sauna, banho muito quente e bolsa térmica sobre a área por alguns dias.
- Exercício: caminhada e rotina normal liberadas no mesmo dia. Costumo orientar a retomada de corrida e treino de alta intensidade a partir de 24 a 48 horas, conforme a extensão da área tratada. Quem corre regularmente merece um aviso extra: o atrito da meia e do tênis sobre a pele recém-tratada incomoda mais do que o esperado nas primeiras 48 horas, e trocar a corrida por bicicleta nesse intervalo resolve.
- Meia de compressão: indicada quando a mesma sessão associou escleroterapia, conforme a orientação dada no dia.
- Sinais que pedem contato: bolha, ferida, dor persistente ou mancha que não regride. São incomuns, e quanto antes eu avaliar, mais simples é a conduta.
Contraindicações e situações que exigem avaliação individual
Nem toda pele e nem todo momento comportam o laser transdérmico. As situações que sempre reviso antes de indicar:
- Gestação.
- Uso de isotretinoína ou de outros medicamentos fotossensibilizantes, incluindo alguns antibióticos e diuréticos.
- Pele bronzeada ou com exposição solar recente na área a tratar, pelo risco aumentado de mancha.
- Dermatoses ativas na região, como vitiligo, psoríase em placa ou infecção de pele.
- Histórico de queloide ou de cicatrização alterada.
- Diabetes descompensado, anticoagulação em curso e trombofilias conhecidas, que mudam o planejamento ainda que não impeçam o tratamento.
Sobre cobertura: o atendimento é exclusivamente particular. Alguns planos podem reembolsar quando há indicação funcional documentada, e essa consulta deve ser feita diretamente com a operadora.
A avaliação vascular antes de tratar
A consulta começa com a história: há quanto tempo os vasinhos apareceram, se doem, se há sensação de peso ou inchaço ao fim do dia, o que já foi tratado antes e como aquela perna respondeu. Depois vem o exame físico com a paciente em pé, que é quando as veias se enchem e a rede mostra seu desenho real.
O eco-Doppler colorido completa o quadro. Ele mostra se existe refluxo nos troncos venosos, onde ele começa e qual segmento alimenta a rede visível. Esse exame é o que separa um plano de tratamento de uma sequência de sessões sem direção. Também é ele que define se o primeiro passo é a superfície ou uma veia mais profunda, conforme a sequência descrita acima.
Só depois disso faz sentido discutir laser, escleroterapia, número de sessões e cronograma. Se você quer entender o quadro venoso mais amplo antes de decidir, a página sobre tratamento de varizes e a de secagem de vasinhos com escleroterapia cobrem as técnicas que costumam entrar no mesmo planejamento.
Perguntas frequentes
O laser transdérmico substitui a escleroterapia?
As duas técnicas ocupam faixas diferentes de calibre. O estudo randomizado de Ianosi e colaboradores registrou vantagem do laser Nd:YAG em vasos com menos de 1 mm e eficácia semelhante entre laser e polidocanol acima de 1 mm. A revisão Cochrane de 2021 descreve resolução melhor quando laser e escleroterapia são associados, com mais dor durante as sessões. Por isso o planejamento costuma prever as duas, cada uma na faixa em que rende mais.
Laser para vasinhos dói?
A sensação mais descrita é de calor pontual, semelhante a um estalo de elástico na pele, sem anestesia injetável. Estudos comparativos indicam dor um pouco maior do que na escleroterapia, e a revisão Cochrane registra resultados inconsistentes entre trabalhos nesse quesito. O resfriamento da pele durante a aplicação reduz bastante o desconforto.
Quantas sessões de laser transdérmico são necessárias?
O número depende do calibre, da extensão da rede de vasinhos e da resposta individual. O intervalo habitual entre sessões é de 4 a 8 semanas, porque a reabsorção do vaso tratado leva esse tempo. A definição do número de sessões só é possível depois da avaliação presencial.
Preciso fazer eco-Doppler antes de tratar vasinhos com laser?
Na maioria dos casos, sim. Telangiectasias correspondem à classe C1 da classificação CEAP, adotada no consenso da SBACV, e podem ser a manifestação visível de refluxo em veias maiores. Quando existe um tronco alimentando aquela rede, tratar apenas a superfície costuma resultar em retorno precoce dos vasinhos. O eco-Doppler mostra se há essa origem a tratar primeiro.
Quem não pode fazer laser transdérmico para vasinhos?
Gestantes, pessoas em uso de isotretinoína ou de outros medicamentos fotossensibilizantes, pele bronzeada ou com exposição solar recente na área a tratar e algumas dermatoses, como vitiligo, exigem avaliação individual antes da indicação. Anticoagulação, diabetes descompensado e histórico de cicatrização alterada também entram na análise.
Quando aparece o resultado do laser transdérmico?
O clareamento é progressivo ao longo das semanas seguintes a cada sessão, no ritmo em que o organismo reabsorve o vaso tratado. A área tratada deve ser protegida do sol por 2 a 3 semanas para reduzir o risco de hiperpigmentação. Cada pessoa responde de forma diferente, e nenhum resultado pode ser garantido antes da avaliação.
O laser pode ser usado em pele morena ou negra?
O Nd:YAG de 1064 nm é o comprimento de onda com maior margem de segurança em fototipos mais altos, porque é pouco absorvido pela melanina. Isso amplia a indicação, e não dispensa o ajuste de parâmetros caso a caso nem os cuidados com o sol depois da sessão.
Agende sua avaliação vascular
Se os vasinhos nas suas pernas vêm aumentando, se já foram tratados antes e voltaram, ou se vêm acompanhados de peso e inchaço ao fim do dia, uma avaliação com eco-Doppler mostra o que está por trás daquela rede e o que faz sentido tratar primeiro. Agende uma avaliação para discutir o planejamento adequado ao seu caso.
WhatsApp: (11) 93089-1050
Dr. Rafael Corrêa Apoloni
Cirurgião Vascular e Endovascular
CRM 120.337 SP · RQE 36519
Formação e atuação
O conteúdo desta página tem caráter informativo e não substitui a consulta médica. Cada caso exige avaliação individual, e nenhum resultado é prometido ou garantido.
Referências
- Baldaia L, Dias-Neto M, Almeida Pinto J. Long-pulsed 1064nm Nd:YAG laser in the treatment of leg veins: Systematic review. Vascular. 2025;33(1):151-166. DOI: 10.1177/17085381241236587. Acessar
- Nakano LCU, Cacione DG, Baptista-Silva JCC, Flumignan RLG. Treatment for telangiectasias and reticular veins. Cochrane Database of Systematic Reviews. 2021. DOI: 10.1002/14651858.CD012723.pub2. Acessar
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- Sociedade Brasileira de Angiologia e de Cirurgia Vascular. Consenso no Tratamento da Insuficiência Venosa Crônica de Membros Inferiores. Acessar